A cerca de 100 km de Curitiba, a Lions Startups aposta que inovação pode surgir fora dos grandes centros. Sediada em Ponta Grossa (PR), a venture builder projeta reunir pelo menos 100 startups nos próximos cinco anos. O CEO André Paixão destaca que o primeiro ano de operação, em 2023, focou em testar o modelo de negócio por meio de um programa de capacitação. Em 2024 e 2025, a empresa concentrou esforços na estruturação da governança e, em 2026, iniciou uma nova fase voltada à expansão.
Lions Startups
A prioridade atual consiste em ampliar o portfólio de startups, superando as limitações de estar fora dos principais polos de inovação do país. André ressalta que a posição geográfica, distante da capital paranaense, não favorece a operação. Para fortalecer o ecossistema local, a Lions amplia parcerias com instituições de ensino, como a Universidade Federal do Paraná (UFPR), e participa de eventos para aumentar sua visibilidade. Recentemente, André representou o Brasil em uma feira de inovação na Índia e participou de encontros sobre cibersegurança em Dubai.
Apesar da distância dos grandes polos, Ponta Grossa reúne características que favorecem o desenvolvimento de novos negócios. O município abriga operações de multinacionais, é um dos principais polos cervejeiros do país e mantém forte tradição no agronegócio da região dos Campos Gerais. A estrutura física da Lions comporta até 200 startups incubadas, com a meta de ocupar ao menos metade dessa capacidade em cinco anos.
Entre os desafios para acelerar o crescimento, André cita o cenário macroeconômico. Com a Selic em patamar elevado, investimentos em renda fixa permanecem mais atrativos que aplicações em negócios de inovação. Ele destaca que qualquer negócio inovador envolve grau de risco e que a falta de incentivos governamentais limita o desenvolvimento do setor.
Modelo de negócio inovador
O diferencial da Lions em relação às incubadoras tradicionais está no modelo de remuneração. Em vez de cobrar aluguel pelo uso da estrutura, a empresa oferece quatro frentes de apoio: infraestrutura física e tecnológica, banco de talentos, programa de mentoria e conexão com investidores-anjo e fundos de investimento. Em troca, recebe 10% de participação societária nas startups incubadas.
André explica que, se a Lions funcionasse como corretora imobiliária, seria mais fácil manter o espaço, mas parte dos ambientes de inovação acaba operando apenas como locação de escritórios. Na Lions, as startups passam por uma avaliação baseada em um “tripé de viabilidade” – jurídica, econômica e tecnológica – antes de ingressar no programa.
Como regra, a empresa não realiza aportes financeiros nas startups. A participação de 10% busca equilibrar risco e alinhamento de interesses. O propósito da Lions consiste em crescer e arriscar junto com as startups. A venture builder opera exclusivamente com capital privado.
Programa de formação e capacitação
Um dos pilares do modelo é o Lions Dev, programa gratuito e presencial de formação em tecnologia criado para abastecer as startups incubadas com profissionais qualificados. O curso, chamado Zero ao Herói do Código, seleciona cerca de 56 alunos por turma, distribuídos nos períodos da manhã, tarde e noite, totalizando aproximadamente 170 participantes por edição.
A formação dura seis meses, com aulas presenciais de segunda a quinta-feira, quatro horas por dia, e inclui assistência psicológica gratuita. André destaca que a proposta vai além do ensino de programação, trabalhando também negócio, mapa de empatia, persona e inteligência emocional.
Para o executivo, mesmo com os avanços da inteligência artificial, a combinação entre habilidades técnicas e comportamentais continuará sendo diferencial para os profissionais.
Construindo o portfólio de startups
Entre as empresas mais maduras da carteira, destaca-se a Vida Exames, rede de análises clínicas que já comercializou 140 unidades em diferentes regiões do país e projeta encerrar 2026 com faturamento anual de R$ 100 milhões. Outro destaque é a Acerte Aqui, plataforma de autonegociação de dívidas que conecta consumidores a mais de 2 mil empresas e instituições credoras.
Também fazem parte do portfólio a System Face, plataforma de gestão para clínicas de estética e saúde; a Sauvvi Tech, voltada à conexão de pacientes com redes de atendimento; a ION Brasil, especializada em marketing, automação e inteligência digital; e a Hulp Aulas, plataforma de aulas particulares sob demanda.
Além da incubação, a Lions promove iniciativas para fortalecer o ecossistema empreendedor da região, como edições do Startup Weekend realizadas em Ponta Grossa. Com capital totalmente privado e um modelo ainda em consolidação, a venture builder aposta que a distância dos grandes centros de inovação pode ser compensada pelo fortalecimento do ecossistema regional, que ainda tem amplo espaço para crescer, segundo o CEO.


